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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Margarida Marante


É costume dizer-se que as pessoas morrem do modo como vivem.
 
Margarida Marante, densa e intensa, atraiçoada precocemente pelo coração na Sexta-feira passada, foi este Domingo a enterrar, entre públicos e plúrimos elogios ao seu enorme talento, que desde muito cedo conquistou respeito e admiração geral.
 
Mas Margarida Marante foi mais longe que isso, e tornou-se numa das figuras mais autorizadas do Portugal democrático, ainda antes do aparecimento dos canais privados de televisão. 
 
Ao contrário de muitos, assumindo a sua matriz ideológica e as personalidades políticas que a entusiasmaram, nem assim algum dia houve quem pudesse acusá-la de não cumprir a sua missão de serviço público à frente das câmaras da RTP.
 
Para o momento da partida da jornalista, o destino reservou as suas ironias:
 
Num fim-de-semana em que a III República, em estertor, apareceu virada do avesso, por um lado, e em que a SIC, por outro, comemorou 20 anos de «revolução na informação» - pelejando agora contra a privatização da RTP - o desaparecimento de Margarida Marante logo havia de coincidir com estas duas datas, sinais de fim de ciclo. 
 
Não há-de ser por acaso que na sua última despedida, Margarida Marante tenha conseguido juntar tantos protagonistas dos media e da política, a que se juntaram muitos anónimos, ou não fosse também ela querida dos portugueses.  
 
Associamo-nos aos votos de pesar expressos pelo País, e num tempo em que os cidadãos parecem irremediavelmente dissociados da causa pública agradecemos ainda a Margarida Marante por ter prendido desde cedo a nossa atenção, ajudando-nos a pensar, e a intervir também. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Liquidação total

Se o que dizem os jornais é verdade, e o Governo está mesmo a preparar  a extinção do Canal 2 e «oferecer» a antena do Canal 1 da RTP a sabe-se lá quem, estaremos perante um caso muito bicudo, de contornos políticos e empresariais escaldantes, quando não perniciosos.
 
Já aqui dissemos o que há muito defendemos:
Parece-nos razoável acabar com um dos dois canais e limitar o outro a publicidade institucional. Seria, no fundo, uma reestruturação do serviço público de televisão, onde o Estado expurgaria dos seus conteúdos autêntico «lixo televisivo», grande parte das vezes adquirido a preços exorbitantes e, sem se olhar a audiências, em vez disso, haveria uma grelha de programas consonantes com o que se exige de uma estação paga com o dinheiro dos contribuintes - qualidade.
 
A «solução» agora aventada, não prossegue nenhum desses objectivos, para além de vir claramente ameaçar a SIC e a TVI, as quais vão ter de disputar a concorrência desleal de um concessionário manifestamente favorecido à partida.
 
Todos sabemos que este Governo aliena sectores de importância estratégica, com a facilidade de um feirante. Está no «código genético» do Executivo de Passos Coelho, sempre a coberto dos compromissos com a Troika. O que não se sabia é que este Governo também gosta de «doar», com a ligeireza de um lojista em tempo de «liquidação total».
 
Mas o Governo, pelo menos neste assunto, para além de revelar ausência de sentido de Estado, e zero de inteligência, enreda-se também num imbróglio estúpido: toma a oponião pública por parva, actua como se pudesse fazer o que lhe apetece impunemente, e «compra uma guerra» com os media portugueses. Faz exactamente ao contrário do que disse Passos Coelho no Pontal: uma reforma contra os profissionais do sector. Todos. Ou alguém acha que quem trabalha na SIC e na TVI não se sente ameaçado, e que esses quadros não vão ser solidários com os seus colegas da RTP?
 
Se não fosse o argumento do Memorando com a Troika e o «imperativo nacional» de conservar estabilidade política, o Governo já tinha cambaleado por causa de várias «trapalhadas». Ninguém pode dizer que não seja desta vez que o Executivo seja empurrado para o corredor do «aguenta-te, não caias».
 
Esperemos agora pela apresentação dos moldes em que será feita a concessão, e pelo Grupo que vai explorar o Canal 1... enfim, uma grande «novela».