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segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril, apesar de Marcelo

Apesar da frescura do novo Presidente da República, o 25 de Abril tem de se "reinventar". Mais no ideário que na forma, porventura.
 
Nasci dois dias após a Revolução, precisamente. Desde sempre que tive a sorte de saber o que foi a I República e o Estado Novo. Tal como o período do fervor ideológico dos anos 70, desde a aurora democrática até à revisão constitucional de 1982.
 
Daí para cá, a nossa história colectiva é também a da minha vida e da minha geração. Sabemo-la de cor. Contamos muitos Abris somados. De testemunhos, sonhos, ideias, discursos, evocações, homenagens, realizações, circunstâncias e pessoas. De um País que conheceu nestes anos uma aceleradíssima mudança, não apenas política mas também sócio-económica e cultural.
 
Abril mudou Portugal. Passados mais de 40 anos, queremos que Portugal mude Abril. Não aquilo que foi conquistado, aquilo que foi conseguido ou aquilo que está realizado. Mas aquilo que está subvertido, que está incumprido, mais o imenso que falta fazer.
 
Claro que é a qualidade da democracia (a formal é uma falácia) e o bem-estar social (a ruptura mais que iminente do Estado Social) que estão principalmente em causa!
 
Uma sociedade onde, muitas vezes, os poderes de facto se sobrepõem aos poderes legítimos, de direito, é uma sociedade de medo. Que mete medo.
Uma sociedade que atira os velhos a um canto e nada garante aos novos, é uma sociedade sem esperança. Que exaspera e desespera.
Uma sociedade onde um quarto da população está em risco de pobreza ou exclusão, mais que uma sociedade injusta, é um barril pólvora, com tantas desigualdades.
 
Hoje, fez o tal "dia inteiro e limpo": nas praças, esplanadas e lugares à beira-mar. Não no Parlamento, onde, por exemplo, vimos uma deputada do PSD ir à tribuna bradar contra a "indiferença" e apelar à participação cívica, enquanto nas bancadas do hemiciclo podiam ver-se clareiras com cadeiras vazias.
Sou por Abril, sim. Aquele que falta. O da República que falta regenerar. O do Estado que falta reedificar. O da justiça social que não brota nem do assistencialismo gauche nem do liberalismo nouveau riche.
 
Os povos e as comunidades, tal como as pessoas, têm identidade, possuem traços genéticos. Têm raízes e não são imunes a determinantes externas. Trabalhemos, pois, todos e cada um, por fazer mais e melhor a partir de nós mesmos. Como somos, com aquilo que temos, que sabemos e que somos capazes.
 
Cumprir Abril será agora, primeiro que tudo, encontrarmos soluções próprias para os nossos problemas concretos. Portugal, todo ele, merece uma agenda própria. Ou não fosse a especificidade o traço comum que mais une os portugueses de toda a parte.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ouçam bem, que isto não vai ser dito muitas vezes

 

Marcelo Rebelo de Sousa acha que as eleições estão perdidas.
Quem diz que é para perder não será candidato. Rui Rio não diz que é para perder, mas diz que só vai se for apenas ele. Tal não acontecerá. Rio também não será candidato.
 
Ou o PSD "inventa" um "candidato oficial", como, por exemplo, em 2011, "inventou" Fernando Nobre, para "candidato" a Presidente da Assembleia da República, com os resultados que se viram.
 
Ou o PSD opta, simplesmente, por abster-se de apoiar qualquer candidato na primeira volta.
 
Ou o PSD, seja em consonância com os órgãos do Partido seja à revelia, decide apoiar quem já tiver entretanto apresentado a sua candidatura.
 
Vai tudo dar ao mesmo.
Só é um problema para o PSD.
Marco António que registe.

domingo, 1 de junho de 2014

Uma entrevista que sai barata


Não se trata aqui da entrevista nem do entrevistado. É a entrevistadora, esperta que nem um alho, que cita muitos livros, viaja imenso e sabe montes de coisas. Há detalhes em que a Dra. Clara se revela. Avança: «Jantámos italiano, uma massa fresca com lavagante, recomendada e que ele não teve coragem de recusar apesar de achar demasiado opulenta». Mais adiante remata: «Recusou, com mão definitiva, um segundo copo de vinho do Douro de uma quinta de gente conhecida». Dêem-lhe lavagante recomendado e Douro de gente conhecida que a coisa vai. E acaba por sair barato. Isso, a Dra. Clara, não há maneira de aprender.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A coincidência fará dupla?


Sobre as presidenciais, o Prof. Marcelo, instado há sucessivas semanas por Judite Sousa, já não podendo adiar mais, foi enxuto, digamos assim. Não vimos ali truque nem malabarismo.
 
Vimos um homem honesto sem deixar de ser prudente na análise. Cauteloso sem disfarçar quanto a sua circunstância o apoquenta.
 
Todavia, Marcelo parte de um premissa que tanto é defensável como controvertida. A tese da dupla, por causa sobreposição do calendário. 
 
Como se fossem tickets, à americana.
Como se cada dupla estivesse inextricavelmente comprometida na sorte e no azar.
Como se não se tratassem de eleições distintas para o exercício de funções distintas.
Não parece crível que os portugueses queiram colocar "os ovos no mesmo cesto" em 2015 e 2016.
 
Para além de uma crise política no Governo ou um tumulto no PS, o que pode vir baralhar tudo?
 
Passos Coelho não ser o candidato a Primeiro-Ministro do PSD. 
O CDS/PP não se apresentar com Paulo Portas na liderança do Partido.
 
Aí é que se trocam as voltas a Pedro Santana Lopes, Durão Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa, por esta ordem. Sendo que isso seria melhor para Marcelo ou Rui Rio. Ou Marcelo e Rio, cenário que o Professor se esqueceu ou não quis dizer, para não baralhar a tal dupla. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Prof. Marcelo e os múltiplos de 4


Ainda não tivémos ocasião de ler, de fio a pavio, a biografia «consentida» do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, do jornalista Vítor Matos, com edição da Esfera dos Livros, que foi apresentada Quarta-feira passada, na Faculdade de Direito de Lisboa.
 
Porém, uma vez com o livro na nossa posse, passámos os olhos, naturalmente, por algumas passagens das mais de 600 páginas agora dadas à estampa.
 
Um dos aspectos curiosos (entre múltiplos que, por certo, iremos encontrar) é o facto de estarmos em finais de 2012 e a biografia quedar-se em finais de 2004... há múltiplos de quatro por narrar.    

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Maternidade Alfredo da Costa


Por vezes, governar bem não é insistir em levar por diante uma medida só para mostrar «pulso», ou para não perder a «face». Por vezes, governar bem implica recuar. Por vezes, governar bem é «emendar a mão» quando o despacho revela desconformidade com os fins prosseguidos e o alcance da decisão prejudica as boas razões.

Sem especular, mas não esquecendo como o «circuito da informação» é um «labirinto de ofícios» susceptível de ser desvirtuado até ser presente ao Ministro, acreditamos que a equipa de Paulo Macedo não terá feito o «despiste» necessário ao dossier/MAC que lhe chegou. 

Daí para diante, feito o pré-anúncio e criada a polémica, a tentativa de justificar o encerramento da Maternidade com base no «suporte do papel»  e nas «informações da cadeia hierárquica» não bate certo com a realidade.

Neste, como noutros casos, terá havido alguma ingenuidade. Falta de «calo», como se diz na gíria.

Marcelo Rebelo de Sousa, no comentário deste Domingo, disse mesmo que Paulo Macedo foi enganado.

De resto, o melhor serviço que o Gabinete poderia prestar ao Ministro seria mostar-lhe o vídeo, com a análise do Prof. Marcelo, que ofereceu o melhor dos contraditórios e em poucos minutos soube fazer valer as razões para a manutenção da MAC. De forma muito serena e convincente, diga-se.             

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Abril, freguesias e águas mil

foto: Expresso

Ao contrário do que diz a Constituição, a Lei, e os discursos políticos, facto é que as freguesias têm sido ao longo da III República o «parente pobre» do poder local e da tão propalada descentralização administrativa do Estado. 

Com efeito, é o mesmo Estado, com a regionalização inscrita na CRP, por exemplo, que confere poderes às autarquias locais, neste caso, às freguesias, que não encontra solução de meios para que estas exerçam cabalmente as suas atribuições e competências, manifestamente insuficientes. 

Depois, o resultado está à vista: as Juntas de Freguesia, à mercê das migalhas do OE, caem facilmente «nas mãos» dos piores dos «caciques», porquanto sujeitam-se aos famosos «protocolos de delegações de competências» com câmaras municipais e/ou organismos do poder central, gerando-se, assim, na prática, um «garrote» que em muitos casos faz remontar os presidentes de junta aos antigos «regedores», que não eram eleitos mas nomeados, de resto, tal como acontecia com os executivos municipais.

Ora, sendo que toda e qualquer reforma, como aquela que está em curso, devia debruçar-se sobre estas questões prévias com isenção e bom-senso, aproveitando o momento para uma reflexão desta natureza e o encontro de soluções equilibradas, indo agora ao que está «em cima da mesa», a grande questão passa por sabermos muito bem o que queremos ao nível do ordenamento e da ocupação do território, do combate à desertificação do interior e zonas mais desfavorecidas economicamente, e dos mais elementares princípios de equidade, não só no «corte», mas também no «exemplo» que o poder central deve ser sempre o primeiro a dar.

Donde, em primeiro lugar, esta reforma começa mal enquanto o Estado não tiver legitimidade bastante para dizer, «as gorduras» da administração central e do subsector empresarial já foram eliminadas, «as gorduras» das autonomias regionais e do subsector empresarial regional também, «as gorduras» dos municípios e do subsector empresarial municipal idem aspas. 
Só aí é que passarão a existir condições para extinguir freguesias.

Depois, em segundo lugar, os critérios de extinção/fusão/agregação jamais podem resultar de um «programa excel», cujo sistema informático dita a sorte das freguesias consoante critérios estatísticos. O País é macrocéfalo e desigual, «tombado» para o litoral, pelo que pode fazer sentido extinguir uma freguesia com 5 ou 10 mil habitantes em dado concelho e já não fazer sentido aplicar a mesma regra para uma mais pequena, pertencente a outro município que tem apenas 500 ou 1000 fregueses. A destrinça entre os meios urbanos e rurais é essencial, como essencial é também saber avaliar o que representa a freguesia para as populações do litoral ou do interior.

No fundo, estamos a falar de uma palavra que anda muito arredada e faz muita falta: comunidade. Era bom que os governantes e deputados tivessem sempre presente a noção de onde advém a comunidade nacional, quais os seus pilares e estrutura piramidal. Caso contrário, corroídos os alicerces, perdidas as referências e o sentido de pertença/partilha, é o próprio Estado central que fica enfraquecido, como um castelo construído em cima de areia.



Então, agora, é o Prof. Marcelo o responsável pela balbúrdia e «forrobodó» gerado no PS por causa de uma revisão estatutária polémica, que fez aquecer os ânimos entre os próprios militantes do Partido Socialista, alguns deles com responsabilidades nos órgãos do Partido, e que não se conformam com as alegadas violações às leis e regulamentos internos? Sinceramente... caso tenha havido «garotada», resolvam lá isso dentro de casa, no Largo do Rato. Caso não fiquem contentes com o «lavar de roupa suja», podem, quer uns, quer outros, recorrer sempre aos tribunais.  Com o devido respeito, quem é que António José Seguro pensará que é? Não saberá o Secretário-Geral do PS que também ele e os  membros dos órgãos do Partido que lidera podem ser criticáveis?



cartoon António, Expresso

O cartoon do Expresso, melhor síntese que outra qualquer, diz tudo sobre a situação de Portugal:

Uns dirão que estamos a meio da ponte, com meio caminho andado para a outra margem.
Outros, que estamos parados na «corda bamba», e que caminhar é uma variável que depende do exterior. 



A previsão dá chuva. Oxalá caia na medida das necessidades.
É a melhor notícia para esta semana. Bem precisamos de água.
É que, para além da seca, este Verão, parece-nos, vai ser quente.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Tiro de partida para Belém

A propósito da mais recente «fífia» de Cavaco Silva (que há dias cancelou uma visita à Escola António Arroio por, segundo consta, não se ter sentido seguro, ao saber que havia ali estudantes preparados para uma manifestação), Marcelo Rebelo de Sousa, na sua análise semanal, na TVI, primeiro inaugurou uma expressão de fundo alcance político, dizendo ter começado «a época do tiro ao Cavaco», para, depois, vir em socorro do Presidente da República, figura máxima do Estado.

Alegando, em síntese, que o País não pode correr o risco de perder a última das suas reservas institucionais, especialmente, quando Portugal está em observação permanente por parte de várias entidades externas, por um lado, e o PR em funções tem ainda tem um longo mandato pela  frente, com eleições autárquicas, europeias e legislativas pelo meio, onde, em caso de crise ou bloqueio político, será chamado a intervir, por outro.  

Percebe-se a sensatez do argumentário de MRS, o qual, todavia, a contrario, acabou por revelar quão «pungente» é a natureza da relação entre o PR e o País, depauperado que está o vínculo afectivo e de respeitabilidade entre o garante de soberania e os cidadãos, bem como o primeiro órgão de soberania e as funções que desmpenha perante os demais órgãos de soberania e instituições democráticas.

Numa frase, o apelo de MRS reconduz-nos à tal frase dos corrosivos tempos em que Cavaco Silva era Primeiro-Ministro com Mário Soares em Belém, segundo a qual era preciso «ajudar o Senhor Presidente da República a terminar o seu mandato com dignidade».

Mas o mais «cirúrgico-sensacional» da intervenção de MRS estava reservado para Durão Barroso. En passant, o Prof. aproveitou para chamar o actual Presidente da Comissão Europeia à liça, reservando-lhe a farpa que até aqui ainda não fora assumida em público, apesar do que se diz «à boca cheia», em privado:

Durão Barroso, que tem vários «núncios» em Lisboa, prepara a sua candidatura presidencial. Marcelo Rebelo de Sousa, sempiterno presidenciável, também, ele próprio, já apontado, decidiu ser altura de lançar Durão Barroso e, pela via da defesa de Cavaco Silva, e também do próprio Pedro Passos Coelho, opondo-se ao estrangeirado «candidato a candidato», como disse, lançou-se a si (e assim) mesmo. 

Há já algum tempo aventava-se aqui que, ao centro/direita, as movimentações para Belém estariam iminentes... nada de especialmente premonitório, para quem estívesse minimamente atento.

Agora, aquilo que mais nos impressiona é assistir ao timing do «tiro de partida» para a sucessão a Cavaco Silva/Presidente da República, quer como figura de referência para o centro/direita português, quer como Presidente de «Portugal inteiro», eleito e reeleito que foi, sempre na 1ª volta.

Aferindo pela pressa dos «sucessores» em colocarem-se na «linha de partida», afigura-se-nos, isso sim, uma disputa feroz (a procissão ainda nem vai no adro), a qual, será inevitável, acarretará consigo a tal reconfiguração do quadro político-partidário português, pela qual, de resto, começámos a propugnar em 2005. 

Na verdade, por este esboço, que vai ganhando contornos mais nítidos, como diz o Povo, «não há miséria que não traga fartura».
Deus queira que o adágio se confirme para lá dos «tiros», em toda a sua extensão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A loja do Prof. Marcelo

Foto: TVI

No seu espaço de comentário no Jornal das 8 da TVI, este domingo o Prof. Marcelo foi particularmente incisivo. Esqueçamos agora a Renova, os livros, as respostas aos mails e as notas finais de lado. Demos por muito pertinente a análise e o convite à reflexão sobre as misérias a que os nossos idosos são votados, tal como os feedbaks que lhe chegaram de Davos sobre Portugal, e ainda a questão da entrada de capital angolano no BCP.

MRS bem avisara que os temas eram «pesados»... vai daí, quando chega ao alegado mal-estar entre Belém e S.Bento, faz uma abordagem geral eloquente, que qualquer patriota sufragará.
Depois «abre o livro». De uma penada é capaz de uma «tripla» monumental:
Defender o Presidente da República, ditar o fim do cavaquismo, sem deixar, de permeio, de «espetar um par de bandarilhas» no Governo. Mesmo ao «cair do pano» lança Carvalho da Silva na corrida presidencial, citando uma passagem do discurso do líder sindical no congresso da CGTP. 

Que será que MRS queria dizer quando disparou, mais ou menos, isto: «cavaquistas, só há um, Aníbal Cavaco Silva, os outros andaram às cavalitas do Presidente»? Ou, «os cavaquistas anónimos que desamparem a loja, o tempo deles passou»? Ou ainda, «Relvas foi um erro de casting»?

Não sabemos, ao certo.

Mas temos a forte percepção que daqui até 2016, o centro/direita português vai mesmo implodir.
Já não era sem tempo... a «paz podre» começou com Cavaco Silva. Com Cavaco Silva terminará.
Bem vistas as coisas, estes penúncios de «contendas», apesar da sua espectacularidade, são relativos.
Portugal tem problemas bem mais grados e urgentes para resolver de imediato. Isso é que é grave. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Golpe fatal


Nos anos de 2008, 2009, 2010, excepção feita a uma frase durante uma Mensagem de Ano Novo, o Senhor Presidente da República esteve mudo e permaneceu calado. O silêncio de Belém chegou a ser ensurdecedor. Para nota de rodapé, ficou registado o "Estatuto dos Açores" e o "Watergate na Casa Civil".

Assim foi até Janeiro de 2011, com a reeleição logo na 1ª volta das presidenciais à vista, que alcançou. De seguida, insustentável que se tornara a relação com José Sócrates, o princípio da «cooperação estratégica» foi rasgado e o Presidente deu sinais (no 25 de Abril, p.ex.) da necessidade do País mudar de rumo, como quem diz - nova Troika, nova aliança, nova governação.

Passadas as eleições legislativas antecipadas, a posse do Governo de Passos Coelho, e um Verão de meias medidas, em que o PS fez férias, chegámos a Outubro de 2011, com Portugal à beira da bancarrota, apesar do empréstimo entretanto concedido.

Os portugueses interiorizaram a extrema gravidade da situação, ou os "tumultos" teriam começado quando o Ministro das Finanças apresentou a Estratégia Orçamental, logo nos primeiros dias de Setembro.

Passado um mês, com o cenário político e macro-económico a agravar-se na Europa, ou tínhamos um Orçamento para 2012 de autêntica consolidação, que inspirasse a confiança dos credores, ou seríamos arrastados para o teatro grego. Impunha-se que Portugal fizesse das tripas coração e todos cerrassem fileiras, apesar dos protestos de muitos, de resto compreensíveis.

De repente, "Lázaro" levanta-se e fala. Numa entrevista televisiva a partir dos jardins do Palácio em fins do mês passado, no 05 de Outubro, e mais recentemente numa deslocação a Itália. Nesta nova fase, agora da força da palavra, no essencial fê-lo bem, a ajuizar pelas reacções desencadeadas.

Eis que ontem, se o Primeiro-Ministro já tinha vindo dizer aos portugueses que este seria o Orçamento* mais doloroso de que há memória, o Presidente da República, com sua interpretação constitucional do conceito de «equidade fiscal», num "assomo sidonista", veio "incendiar" o País.

Desde logo, vem dar abrigo a um eventual voto contra do PS, que vai quebrar o Pacto FMI/Partidos.

Depois, vem constituir-se patrono dos sindicatos e todas as forças de protesto, que agora esmeram-se a amolar facas para a mega-manifestação de 24 de Novembro.

Por outro lado, vem azedar, na pior altura possível, a relação com o Governo, que agora fica irremediavelmente ferido na asa.

Por fim, e para cúmulo, vem dizer "apenas" isto à União Europeia - cá dentro, não nos entendemos.

Toda a gente sabe que o Presidente da República não deixa sequer um átomo ao acaso. Cavaco Silva não iria ociosamente atrás do pregão da "sensibilidade social", sabendo a priori, como sabe, que as suas palavras cairiam como uma bomba, caso não tivesse um motivo bem definido.

Que será que Cavaco Silva sabe que nós não sabemos?

- Que os sacrifícios são em vão, por não haver salvação possível?
- Que quer chamar a si a mão do jogo político-partidário, numa investida presidencialista, descrente do Governo e da Assembleia da República?
- Que o Chefe do Estado deve abdicar da concertação institucional em torno das metas traçadas, em favor de um papel mais cómodo, a salvo do descontentamento, qual válvula de escape da indignação?

Em qualquer caso, a partir de ontem, o Senhor Presidente da República está obrigado a dar explicações.
Ou fala já, ou a machadada que desferiu vai abrir um golpe fatal.

* Curioso é notar que já no Domingo passado Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, fora muito contudente na crítica à Proposta de Lei do Orçamento apresentada pelo Governo. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Presidente por um dia


António Barreto é hoje uma figura que o País estima e muito respeita.

O seu trabalho, sobretudo enquanto académico, investigador e sociólogo, alcandorou o "livre-pensador" a referência nacional, com um estatuto “supra”, de equidistância muito fora do comum.

De tal modo assim é que a sua palavra paira como reserva do espírito sobre as cabeças, tanto de governantes como de governados. Na verdade, todos ouvimos António Barreto com atenção.

Se houvesse Senado em Portugal, por certo que um lugar lhe seria destinado. Será até legítimo interrogar por que razão o “Senador" não integra o Conselho de Estado.

Ora, curioso é notar que, pese embora os papéis importantes que António Barreto desempenhou no plano político, quer governamental quer como parlamentar, não é daí que lhe advém a áurea.

Há dias, Marcelo Rebelo de Sousa, antes mesmo de entreabrir a janela a si próprio para Belém, abriu a porta a António Barreto para a mais alta das magistraturas, facto que não deixa de ter a sua graça...

Ultimamente, há jornais que têm convidado diversas personalidades a ser directores por um dia. Sabemos que uma iniciativa dessa natureza é impossível na Presidência da República. Mas admitamo-la, por mera hipótese: havia de ser interessante ver António Barreto chefiar o Estado por um dia, como quem dá uma entrevista à SIC ou faz um discurso no 10 de Junho.

E que dizer do Prof. Marcelo em tal exercício?
Ultrapassaria, com certeza, o share da «Casa dos Segredos», e teríamos um programa com conteúdos bem mais interessantes, com todo o respeito pelos telespectadores do reality show da TVI.

domingo, 4 de setembro de 2011

Um tareão


Era de esperar. 
No seguimento da apresentação da Estratégia Orçamental do Governo e do périplo europeu do Primeiro-Ministro, de toda a parte houve vozes que se levantaram e silêncios que se fizeram notar. Reforma do Estado e medidas para o crescimento, "noves fora, nada"... 
Esta noite na TVI, o "benigno" Prof. Marcelo não se quedou por aplicar umas reguadas aos "rapazes". 
Deu-lhes o maior "tareão "que alguma vez levaram, desde a tomada de posse.
Estavam mesmo a merecê-las.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O cubo mágico


Os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa no «Jornal das 8», que a TVI repete mais tarde, na TVI24, estão imperdíveis. O Professor é imbatível. Faz lembrar o jogo do «cubo mágico». Aqui, Júlio Magalhães desmonta o cubo, a cores e ao vivo, concede uns escassos minutos ao convidado, e este, num ápice, enquanto apresenta livros, apela a iniciativas de solidariedade social ou partilha entusiasmos com os últimos feitos do Braga, constrói o cubo, de maneira a que todas as faces apresentem cores iguais, para contento de todos. E ainda sobra tempo para responder às perguntas dos telespectadores. É genial.

Há só uma coisa que não sabemos: se para lá das perguntas, o Prof. também aceita respostas.

Admitindo, cá vai uma:
Diz o Prof. Marcelo que Passos Coelho tem de ganhar o debate a José Sócrates e, adianta, para conseguir o objectivo, o líder do PSD tem de "cair em cima" do adversário, interpelando-o com a questão de tanto Paulo Portas como o próprio já terem assumido que não aceitarão integrar um Governo com o Partido Socialista - que diga, então, o Secretário-Geral do PS, como é que vai governar, caso seja o mais votado, embora com maioria relativa, se os chefes do CDS/PP e do PSD não estão disponíveis para se sentarem à mesa com ele?

Ó Senhor Professor, a resposta é simples:
José Sócrates começará por dizer que não tem problema algum com nenhum dos dois que assinaram o Acordo e que, caso esse cenário se coloque, não deixará de pautar a sua conduta pela postura institucional que se requer, auscultando os dois Partidos à sua direita, sobre as altas responsabilidades patrióticas que o momento determina. Como quem diz: se vencer as eleições, ou se aprontam para dançar o tango, ou os aparelhos partidários encarregam-se de os pôr a dançar, cumprindo-se, alíás, a tradição...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Maria-vai-com-as-outras?


Na Quarta-feira passada, dia 13, tivemos ocasião de manifestar num post à atenção de Paulo Portas, quão importante seria para o quadro político-partidário que o CDS/PP fique de fora do governo que resultar das eleições de 05 de Junho próximo. 

É simples: por força dos imperativos ditados pela intervenção externa e estando praticamente adquirido que nenhum dos dois maiores partidos alcançará maioria absoluta, começa a desenhar-se a formação de um novo Bloco Central, pois ainda que PSD+CDS/PP tenham um suporte parlamentar de metade dos mandatos mais um, o PS terá de fazer parte da solução governativa de "compromisso nacional" reclamado.

Significa isto que, com PS+PSD forçados ao entendimento, desde logo por serem os primeiros signatários do «Pacto FMI/Partidos», a oposição, dentro e fora do Parlamento, será confiada à CDU+BE, que recusam terminantemente subscrever o Acordo para o pedido de ajuda externa.

Assim, caso todos os partidos do «arco governativo» venham amarrar-se numa coligação tricolor, isso trará consequências complicadíssimas para o centro/direita, que fica sem voz crítica, ao passo que, à esquerda existirão "válvulas de escape", de que o Sistema precisa. 

Adiante:

O Prof. Marcelo, no seu espaço semanal na TVI, aproveitou para "entalar" o CDS/PP, dizendo que o Partido de Paulo Portas não pode deixar de assinar o Acordo, pois é impensável querer integrar o Governo sem antes integrar o «Pacto FMI/Partidos». Visto assim, faz sentido. Mas, na verdade, é uma boa esparrela:

O que impede o CDS/PP de ser responsável, assinando o Acordo que se impõe, para "salvar" Portugal antes de 16 de Maio, resguardando-se, porém, no direito de não pactuar com o Bloco Central que aí vem, optando por uma "aliança com os portugueses" pós eleitoral?

Poderá dizer-se que isso não tem lógica nenhuma, pois seria colocar-se numa posição contrária ao compromisso assumido.

Não, não! São coisas completamente diferentes:
Uma, é dar o seu aval ao empréstimo.
Outra, é passar um cheque em branco ao PS e ao PSD.

Será bom que Paulo Portas, prudentemente calado, venha esclarecer isto a tempo, ou sujeita-se, também ele, a perder a confiança de quem vê no CDS/PP a derradeira força onde depositar o voto.

Chegou a última hora de fazer a prova:

- Paulo Portas pode liderar o centro/direita?
- Mais não pode que chefiar um partido "Maria-vai-com-as-outras"?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Será vício?

Já tínhamos feito referência ao seu quê de "pitoresco", o facto do Presidente da República usar o facebook para fazer declarações ou emitir opiniões. Hoje, no seu espaço semanal,  Marcelo Rebelo de Sousa, e bem, suscitou a questão, desta vez na sequência das mensagens que Cavaco Silva veiculou através da rede social, após o seu discurso de tomada de posse. O Chefe do Estado, quando "fala", deve fazê-lo de modo mais apropriado que por via de meros "desabafos", postos a correr online.

É bom que os políticos utilizem as modernas plataformas digitais, especialmente para estreitarem contacto com quem já utiliza estas ferramentas de comunicação mais que quaisquer outras. Mas daí a entender-se que essa é a regra pode conduzir a resultados, ou, pelo menos, interpretações contraproducentes. Isto, é claro, não tem nada que ver com o e-government que, como se sabe, é outra coisa, completamente diferente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Política pura - o Prof. Marcelo no seu melhor


Marcelo Rebelo de Sousa considera «naturalíssimo» que o presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, queira desencadear o processo de revisão da Constituição.
«Acho que é naturalíssimo, porque a história tem mostrado que quando um líder da oposição está longe de eleições, não há eleições no imediato, sobretudo para a Assembleia da República», tem espaço político para avançar com a proposta (...)
TVI24 online, 22 de Abril de 2010

Não vi no canal que aqui serve de fonte. Vi na SIC. A notícia foi apresentada em tom de apoio do Prof. Marcelo à iniciativa de revisão constitucional, lançada por Pedro Passos Coelho. E o que é que o Professor aproveitou para colar à mensagem? Não há eleições, não há eleições, não há eleições...  como quem diz, dizemos nós - o PSD ainda tem um longo deserto para atravessar, bem pode ir marcando a agenda, que depois, mais lá para diante, se a praia aparecer no horizonte, logo se vê... 
Basta o Senador falar para que Passos Coelho não careça de mais Senado. O Prof. Marcelo é política pura, no seu melhor. Fino. Muito fino.  De se lhe tirar o chapéu.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O andar de cima

Sabem o que costuma acontecer quando os meninos traquinas vão brincar para o andar de cima e alguém, depois, estranhando o silêncio, decide ir ver a razão de tão pouco habitual sossego, não sabem?

Ou estão muito cansados. Ou segredam os planos em mente. Ou, então, descobriram maneira de virar a casa do avesso sem que ninguém desse conta.

Se estiverem muito cansados, o dia acaba bem lá em casa. Se estão aos segredinhos, o dia acaba mal para os que forem apanhados, e bem para os que se souberem safar. Se descobriram maneira de virar tudo do avesso, a casa vem abaixo. Pelo menos o andar de cima... quer esteja quer não, o menino Marcelo Nuno metido ao barulho. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Assim é que é falar!

1. Sobre Vítor Constâncio, diz o “ionline” que …era ontem um homem feliz e triste. Feliz porque foi escolhido pelos ministros das Finanças da zona euro para vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Triste porque, como confessou ao i, sente "alguma amargura por ter sido motivado a deixar o país".
Como é possível uma declaração destas? Como é que um dos mais altos responsáveis do País, e agora da Europa, não tenha noção que este choramingar não só ofende como enoja os portugueses? É melhor pensarmos que foram palavras “infelizes” ou “descontextualizadas”… boa viagem, Dr. Constâncio! E não se apoquente, caso meta a mão na consciência. Quando voltar à nossa terra será recebido de braços abertos. Por cá, só não há remédio para quem tem fome!

2. Pedro Passos Coelho, em entrevista à SIC, veio mostrar como é que é. Pois se é homem para fazer “baixar a bola” a Alberto João Jardim, também há-de ser capaz de governar Portugal. Brilhante. Mais à frente, o jornalista Bernardo Ferrão pergunta-lhe se estaria preparado para ser PM, na sequência de uma eventual Moção de Censura. A resposta está gravada… alguém viu?

3. Domingo, na RTP1, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa explicou tudo. Ponto por ponto. Se a ciência não for uma batata e se o telespectador, ávido de apontamentos, for um aluno mediano, só tem que escrever isto, que passa no exame – “Os superiores interesses nacionais determinam que Cavaco Silva seja reeleito. Para acautelar tais interesses, o PR não pode provocar uma crise. Donde, é preferível manter a estabilidade e garantir o (formal) regular funcionamento das Instituições. Há ainda uma segunda virtude nesta opção, também ela de interesse nacional; com o Governo bem apodrecido e o PS desfeito por uma derrota presidencial, o PSD pode, então, aí sim, arrancar uma bela maioria absoluta.” Constança Cunha e Sá, que deve ser uma “aluna fraquinha”, sustenta hoje, no “Correio da Manhã”, o seu «Sem condições». É “chumbo” pela certa, está visto. Só não vê quem não quer, pois claro!

Assim é que é falar!