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sábado, 22 de outubro de 2011

Shame on you



Lembro-me bem.

Em 1990, quando rebentou a 1ª Guerra do Golfo, também a primeira a ser transmitida «em directo», andava no 12º ano e pertencia à Associação de Estudantes. Por essa altura, alguém da Amnistia Internacional foi ao Liceu da Horta fazer uma palestra. Só se falava da Declaração Universal dos Direitos do Homem e da sua reiterada violação por toda a parte, incluíndo Portugal. A dado momento, quando, como de costume, o debate foi aberto à plateia e as pessoas da mesa faziam aquele ar simpaticamente forçado, de curiosidade a roçar o troça, sobre a timidez dos alunos em avançar com questões, levantei o braço e perguntei, «Se o ditador Saddam Hussein for apanhado e depois executado, qual é a posição da Amnistia Internacional? Protesta?». Não obtive resposta. Fiquei, claro, com a sensação própria dos irreverentes, por ter embaraçado os de cima do estrado.

Passaram 21 anos.

Ao ver há pouco as imagens que estão a ser divulgadas sobre a barbárie da morte de Kadafi, continuo, não só a interrogar, como a censurar veementemente. Tanto o horror perpetrado, em si mesmo, como a aparente aceitação daqueles factos, por parte dos meios de comunicação social, por múltiplos responsáveis e organizações, e pela comunidade global. 

O «espectáculo» parece ser visto como trivial, ou mais uma notícia entre outras, em que tudo se equivale, acabando por resultar no mesmo plano o abate dos felinos que um cidadão dos EUA soltou numa cidadezinha e abate de Kadafi depois de capturado enquanto pedia clemência.

Cumpre perguntar: mas o que é isto?
À luz da Lei da Guerra (sim, as forças da NATO, infiltradas no terreno, deixaram que aquele homem fosse morto daquele modo, às mãos dos desgraçados dos ébrios rebeldes), à luz do Direito Internacional, e à luz dos valores da dita «civilização ocidental», o que é isto?

Não é de Lei, não é de Direito, nem é de Justiça. 

Por cá, que somos muito dados a moções, intervenções e reclamações, é caso para perguntarmos: onde andam as Anas Gomes, os Marinhos Pintos, e demais indignados do nosso País?

Shame on you all, human rights advocates! 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Kadafi só vale um milhão?

Sabemos que a realpolitik  da comunidade internacional muitas vezes não quer saber do "humanismo" para nada e quando nos insurgimos lá vêm as respostas eivadas de raison d´état, à escala dos critérios securitários globais. No fundo, a Lei do Talião existe, é claro, e aplica-se hoje tal como antes dos romanos.

Será legítimo propagandear, como vimos ainda agora na televisão, que há um prémio de mais de 1 milhão de dólares pela captura de Kadafi, vivo ou morto? 

Será legítimo mostrar o escalpe de Kadafi ao mundo, como foi feito com Sadam Hussein, ou, mais recentemente, com Osama bin Laden?

Será legítimo permitir jogos de playstation onde se ensinam as crianças a ser pequenos mercenários?

Só 1 milhão de dólares, Senhores? É pouco! Os interesses dos combustíveis e das armas podem pagar muito mais, que este tipo de festança não é bem a festinha de anos do Bart Simpson na McDonalds...